Viva a música.

Viva a música.

Dois violinos, uma viola e um violoncelo: tido hoje como a formação por excelência da música de câmara, o quarteto de cordas talvez possa ser considerado uma tradição tão vienense quanto, digamos, os cafés ou a psicanálise. Isso porque ele adquiriu sua atual relevância graças a quatro compositores que atuaram na capital austríaca, entre o final do século XVIII e começo do século XIX. De forma resumida, poderíamos dizer que o quarteto de cordas nasce com Joseph Haydn (1732-1809), atinge a perfeição com Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), ganha caráter experimental e visionário com Ludwig van Beethoven (1770-1827) e adquire uma voz própria e pessoal com Franz Schubert (1797-1828) – o único dos quatro a nascer na cidade.

 

Na segunda metade do século XVIII, Viena passou a atrair os compositores que estavam criando as formas da música instrumental que dominariam os palcos de concertos dali por diante: a sonata, o quarteto de cordas, a sinfonia. Era o período que, na História da Música, é chamado de clássico.

 

O “pai fundador” do Classicismo foi Haydn criador de dezenas de quartetos e sinfonias que se destacaram não apenas pela quantidade, mas, sobretudo, pela qualidade. Haydn deixou um corpo sólido de obras nestes gêneros, estabelecendo o padrão que guiaria os compositores a partir de então.

 

Seu sucessor (e amigo pessoal, com o qual tocou vários quartetos – ele ao violino, o jovem colega à viola), um menino-prodígio de Salzburgo chamado Mozart, viajara pela Europa ainda criança, exibindo seu virtuosismo ao teclado e assimilando os diversos estilos praticados nas capitais musicais de então (Paris, Londres, Milão, Mannheim), dos quais produziu uma síntese única, cosmopolita e pessoal.

Do piano solo à ópera, passando pelo refinamento da música de câmara, pela profundidade da produção sacra e pela grandiosidade do nascente estilo sinfônico, Mozart operou milagres em todas as áreas a que se dedicou.

 

Coube a um aluno de Haydn chamado Beethoven, a tarefa de expandir e transcender as formas levadas ao ápice por Mozart. Paradigma de excelência, influência angustiante ao longo do século XIX, o gênio de Beethoven foi a sombra que intimidou os compositores da linha austro-germânica. Mesmo um talento do quilate de Johannes Brahms (1833-1897), que sequer chegou a conhecê-lo, sentia o peso de compor depois do autor da Nona Sinfonia.

 

Pois bem: 27 anos mais jovem que seu predecessor, Franz Schubert (1797-1828) passou toda a vida criativa na mesma Viena em que Beethoven criou suas obras-primas, falecendo um ano após a morte dele. E, mesmo assim, deixou partituras vigorosas, em um estilo próprio e inconfundível, que a posteridade descobriu com um misto de pasmo e prazer, e que continuam sendo tocadas ininterruptamente até hoje.

 

Boa parte de sua produção foram os lieder – plural de lied, a palavra que designa a canção germânica. Urdindo uma relação complexa entre texto, melodia e acompanhamento pianístico, Schubert escreveu mais de 600 lieder. Esse gosto pela canção revela-se também em sua música instrumental, toda ela cantável e rica em melodias cativantes.

 

– Irineu Franco Perpetuo


Ouça nosso Spotify!